quinta-feira, 26 de maio de 2011

O Poeta Insolvente

Alonso X, o Lábio, foi um monarca que ainda hoje estimo praticamente acima de todas as coisas. E tanto o idolatrei, tanto desejei, um dia, pelo menos, chegar-lhe aos calcanhares, que não houve hora que tenha até agora passado em minha vida, gesto que fizesse, palavra que dissesse ou escrevesse, em que não procurasse, de alguma forma, emulá-lo. E quiçá se calhar até me terei aproximado, numa ou noutra ocasião, da excelência dos seus feitos.
Mas mesmo que tal tivesse sucedido, e eu pudesse mesmo, um dia, por pouco que fosse, derramar um facho de sombra sobre a sua excelsa figura, hoje todas essas aspirações caíram por terra, desde que o Peneira e Tantos, meu Ministro da Fazenda, me declarou, em solene audiência, que, poeticamente, me encontrava em estado de insolvência.
Quedei-me estarrecido. Que fazer, Peneira e Tantos?... Oh inglória demanda… Bom, mas os tipos do Fisgo também não se vão ficar a rir: vou estourar com as últimas rimas que me sobram! Assim, quando chegarem, vão ficar a chuchar no dedo, ah se vão!

Será assim que a posteridade me irá recordar?, como El Rey Ninguém, cognominado…

…o Poeta Insolvente

Isto quem tudo quer tudo perde!...
Tinha conseguido um bom spread
P’ra ter rimas com fartura,
Mas como tudo é sol de pouca dura,
Vi-me apeado do burro
Co’a subida em flecha do juro.
Dei por mim num feito inédito,
A renegociar o meu crédito
P’ra evitar a derrota!
Mas meti-me c’um agiota
Com mais respeito por impressos
Que p’los meus míseros versos.
Tentei explicar-lhe a situação,
Que já nem p’ra fazer canção
Me saía um só poema.
‘Bem, nesse caso, temos um problema…’
Disse-me o tipo, logo na hora.
‘Vamos ter que avançar co’a penhora!’
Não podia acreditar! Meu Deus!
Abrir mão dos versos meus
Não me passara p’la cabeça,
Nem coisa que se pareça!
Mas ali estava aquele tipo engravatado,
Que ao que eu havia criado,
Com tal esforço e dedicação,
Queria ele agora deitar a mão!
‘Porque não tenta um empréstimo particular?’
Aconselhou, fingindo querer-me ajudar.
Mas eu contrapus que poeta, neste país,
Era um rol de gente infeliz,
Sem tostão p’ra mandar cantar um cego,
Que comprava, mas mandava pôr no prego.
Pois disso não houvesse dúvidas:
Poesia era chão que nunca dera uvas…
Portanto, um roto a pedir a um mal vestido
Era coisa que não fazia sentido.
‘Nesse caso, não sei que lhe faça…’
Mas eu nem almoço, como só uma carcaça
P’ra poder ter umas rimas disponíveis,
Com certeza não são dois níqueis
Que aos senhores fazem diferença!
Olhe, até lhes proponho uma avença:
Como as abébias não são muitas,
Faço-vos umas rimas gratuitas
E vós, por gentileza, dilatais-me o prazo,
Senão perco o meu lugar no Parnaso
E depois, já se sabe, sem vintém
E sem rimas, um poeta não é ninguém…
De pouco valeu apelo tão sensível,
O tipo estava irredutível
E eu, co’a corda ao pescoço,
Não tive nem mais caroço
Ou artes p’ra convencer.
Afinal, quanto é que lhe estou a dever?
Perguntei, com uma réstia de esperança.
‘Tanto, que a cifra já alcança
Algarismos bem acima dos milhares!...’
Pronto, está visto! Vou ter que mudar de ares!
Amanhã mesmo encerro a actividade,
Acabou-se a sociedade
Que tinha aberto co’as musas,
Coisa, aliás, bem normal por terras lusas,
Pois se em Roma sê Romão,
Cá no cantinho… sê aldrabão!
E pronto, está decidido, minha gente:
Amanhã, sem falta, declaro-me insolvente.
Ao menos assim acaba-se o tormento,
Mantenho-me discreto por um tempo,
E quando o mercado estiver propício,
Quem sabe não decido voltar ao suplício,
Ainda que por teimosia,
De ser poeta por um dia

El Rey Ninguém
(com os bolsos das suas calças de fora,
quais bandeiras da pobreza...)

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