segunda-feira, 23 de maio de 2011

Campanha "560 à sua volta"

Apesar de eu já ter emitido um alerta público para que não depositassem mais publicidade indesejada no pombal do meu castelo, eis que me chegou há dias, através de um pombo-correio, uma verdadeira exortação à movimentação colectiva em torno de um ideal que a todos interessa: comprar o que é “Made in Portucalem”, para se exercer uma espécie de protectorado cívico sobre a nossa já tão esfrangalhada economia.


Concordo perfeitamente, tanto que logo dei o exemplo: mandei abater o pombo, que eu sabia nado e criado em solo português, e mandei confeccionar uma cabidela com o dito, cujo sabor, tão genuinamente nacional, ainda anda, a esta hora, a esvoaçar-me no paladar!
Mas não querendo quebrar tão solidária corrente, e não dispondo, por infortúnio, de pombos disponíveis para a missão, mandei trazer um abutre, ave deveras simbólica, tendo em conta a conjuntura. Por estas horas, estará a sobrevoar os reguengos deste país, levando, presa a uma anilha na pata, a mensagem que lavrei, imbuído do mais elevado nacionalismo económico. Trata-se de uma campanha...

Campanha “560 à sua volta”

Pois eu tenho uma criada romena
Que tem um corpo que é um estalo,
Mas acham que eu me ralo
Ou que p’ra mim é problema
Consumir só o nacional?!
Eu cá não sou adepto do “tanto vale”,

Só consumo aquilo que é português
E, por isso, romena ou doutra nacionalidade,
Digo aos senhores, e sem vaidade:
Presto, sim senhora, assistência em casos de viuvez
E a outra senhoras, com muito pudor na venta,
Principalmente à hora a que o marido se ausenta…

Jamais ponho pedaço de carne à boca
Sem antes verificar o curral de origem,
Pois sei que há umas quantas que se fingem,
O que quer dizer que toda a cautela é pouca,
E daí que a exigência seja cousa de que me valho
Quando faço compras na charcutaria ou no talho!

E vinho, então? Nisso sou também muito cioso.
Que me importa o Chateau Lafite, o Lambrusco,
Com preços no talão que é um susto?
Não quero saber: maduro, verde, ou gasoso,
De Silgueiros, Cabriz, ou Penalva do Castelo,
Desde que português, vai nem que seja a martelo!


Com o pão, também do mal o menos:
Faz-se de bolotas, à falta de milho ou trigo,
Bolotas com fartura também faz inchar o umbigo!...
O mais certo é que nos desenrasquemos,
E se hão-de ir para os porcos, vizinho,
Olhe, que dizer?... Levam o mesmo caminho!

E do pescado, então, minha gente, nem se fala.
O salmão não é o meu género, nem lavagante,
Isso é p’ra gente vendida e extravagante.
Que importa se o estômago ronca e não se cala?
Nem que passe a vida a comer sardinha,
Se for portuguesa, ah!, até lhe chupo a espinha!

Faça como eu: adira ao “560 à sua volta”!
Comer e beber o que é nosso é sagrada obrigação
Para com os ancestrais “passa-fome” desta nação!
A bem dizer, é uma forma de revolta.
Comamos, bebamos, e se o país não se puder salvar,
Morramos, ao menos, de barriga cheia a tentar!...

El Rey Ninguém
(na versão de fiel e inveterado consumidor do que é nosso.
Mas o que é que ainda é nosso neste país?...)

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