quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Urna de voto do devoto

Fora esta Vossa Majestade àquele lugar onde, indo um português, vão logo dois ou três, e estando a fazer o que é de natureza e obrigação que ali se faça, descobriu, por interpostos ruídos e odores, que em tais alívios do metabolismo era circunstancialmente acompanhado por algum nobre fidalgo, a julgar pelo timbre aristocrático com que eram os ventos despedidos na reclusão do cubículo onde se recolhera p'ra fazer força...  
E eis então que a imaginação, entregando-se a esforços quejandos, me resvala para o seguinte:


Haverá, porventura, sítio mais ignoto
Do que uma urna de voto
Para se encontrar um amigo?...
Pois talvez não, e bem vos digo
Que não entrevi outro pior,
E eu conheço muitos, alguns de cor,
Sítios que não lembra ao diabo,
Onde coisas inomináveis vão a cabo,
Fora outras que, por tão incríveis,
Melhor é que permaneçam indizíveis…
Assim, ali, onde a democracia tem raiz,
Perguntei se já pusera o xis
Ao eleitor de circunstância,
A quem respeitei estatuto e distância,
Não querendo perturbar o seu egrégio acto,
Embora, estranhamente, me prevaricasse o olfacto,
E soltasse, igualmente, uns tais cavos suspiros,
Que montavam, por vezes, à dimensão de tiros,
Sinal de que haveria turbulência
No seu exame de consciência,
E sobre o xis, naquela folha preciso,
Estaria o votante, afinal, mui indeciso…
Assim como assim, interpelei-o:
‘Direita ou esquerda? Olha, vota no meio,
Que talvez seja o mais Seguro.
Mas quando votares, vota duro,
Não votes assim a espaços…
Mais: se for necessário, vota no Passos,
No Jerónimo ou no Louçã,
Só não deixes para amanhã
Esse teu dever eleitoral,
Porque amanhã… pode não haver Portugal!’
‘Pois olha’, respondeu-me, ‘e já que estou aqui,
Votarei, de igual modo, no FMI!
Voto mais útil não há…’
E nisto saiu, vociferou: ‘Já está!’
E ainda acrescentou: ‘Não me importo
De que vejas o meu voto.’
Acerquei-me, com respeito, daquela urna,
E certeza, só tinha uma:
De que naquele espaço discreto
O meu amigo votara no sítio certo.
Disse-lhe, então, com bons modos:
‘Votaste bem. Votaste neles todos!
E cioso de um tão intestino nacionalismo,
Fiz-lhe o favor… e puxei o autoclismo!

El Rey Ninguém 
(sometimes you simply and literally 
have to go with the flow...)

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